Quando pedir uma cachaça era pedir uma paraty
Em 1889, um dicionário brasileiro registrava dois verbetes para a mesma palavra: paratí, peixe parecido com a tainha, e paratí, \"aguardente de canna de primorosa qualidade\". Como um nome fez esse caminho.
Por Duda Porto · 5 min de leitura
Em 1889, um dicionário brasileiro registrou a mesma palavra duas vezes, em verbetes vizinhos.
O primeiro: Paratí, nome de um peixe menor, muito parecido com a tainha. O segundo, logo abaixo: Paratí, "aguardente de canna de primorosa qualidade, fabricada no município deste nome".
Um nome que era peixe virou cidade e acabou virando bebida. Não é causo de balcão: está impresso, com autor e data. Como? A resposta começa onde a história da proibição parou.
O ouro passou por aqui. Depois deixou de passar
A cidade veio brigando. Em 1660 — o mesmo ano em que, no Rio, os produtores de aguardente depuseram um governador — os moradores ergueram pelourinho por conta própria e se declararam vila. A Coroa levou sete anos para aceitar. Foi um bom ano para gente desobediente.
Depois veio o ouro. O Caminho Velho aproveitava uma trilha indígena pela serra e virou rota das minas nos anos 1690, mas era ruim: a viagem do Rio levava até três meses, com um trecho vencido por mar, exposto a corsários. Em 1700 fica pronto o Caminho Novo e a viagem cai para dez dias. O ouro ganha um caminho melhor — e o caminho melhor não passa por aqui.
O golpe tem data. Em 4 de agosto de 1710, os homens de negócio pedem autorização para ir às minas por Paraty. O pedido foi deferido apenas na ida: dava para subir, mas o ouro tinha de descer por outro lugar. Em 1720 a vila ainda perde a Casa de Fundição.
Uma cidade de porto sem carga é uma cidade parada. Só que Paraty tinha serra, rio, sol e terra boa para cana. E passou a embarcar outra coisa.
Doze engenhos e mais de cento e cinquenta alambiques
Aqui vai o número que a cidade inteira repete errado — e a gente corrige com carinho, não com soberba.
Todo mundo diz que Paraty teve "mais de 150 engenhos". A frase existe, num dicionário geográfico de 1845, mas diz outra coisa: "Em todo o districto existem 12 engenhos e mais de 150 fabricas de distillação d'aguardente". Doze engenhos de açúcar e mais de cento e cinquenta destilarias. Não é preciosismo — é a diferença entre uma cidade que fazia açúcar e uma cidade que fazia bebida.
E é aqui que entra o nome da casa. O engenho grande, movido a roda d'água, era o engenho real. O pequeno, tocado por burro ou junta de bois, chamava-se engenhoca — e era justamente o formato usado para fazer aguardente. Paraty tinha 67 deles em 1778, junto com 5 engenhos, 1.554 pipas de aguardente e 1.727 pessoas escravizadas, segundo o relatório do Marquês de Lavradio.
A palavra que batiza esta casa é o nome técnico do engenho que fez a fama da cidade.
Uma paraty, por favor
A palavra fez o caminho inteiro: peixe, cidade, bebida. Câmara Cascudo fez a comparação certa — "um cálice de paraty, diz-se ainda hoje, como quem diz madeira, porto, colares, cognac, champanhe". E ela seguia viva no século XX: em "Camisa Listrada", gravada por Carmen Miranda em 1937, o personagem "em vez de tomar chá com torrada / ele bebeu Parati".
A bebida do Brasil é Paraty.
A ironia fica por conta da grafia. A cidade só passou a se escrever Paraty, com y, pela lei municipal nº 1.553, de 22 de março de 2007 — até em decreto federal de 1966 era Parati. O registro da Indicação Geográfica saiu em 10 de julho do mesmo ano, quatro meses depois. Por pouco a bebida não teria sido registrada com o nome antigo.
Como se lê um engenho
Um engenho se lê como um texto, quando você aprende o alfabeto.
As paredes falam primeiro. A taipa de pilão é terra socada entre taipais, com 60 cm a 1 metro de espessura e meses de secagem antes do reboco: técnica moura, cara, de prestígio. O pau a pique é o contrário — trama de paus finos e barro lançado à mão, rústico e barato. Só de olhar a parede, você sabe quem morava ali.
E o cobre do alambique não é charme, é química: na fermentação a levedura produz compostos de enxofre que cheiram a ovo podre, e o cobre os tira do caminho. Por isso até quem destila em coluna de inox instala peças de cobre lá dentro.
O nome de volta
Cachaça é memória, resistência e prazer servidos no mesmo copo. Em Paraty, essa frase tem cronologia.
Primeiro o silêncio. A ferrovia tirou o café da rota, a Lei Áurea de 1888 desmontou a base de trabalho forçado dos engenhos, e dos mais de 150 alambiques do século XIX restaram três no fim do século XX, segundo a associação de produtores. Só em 1970 a BR-101 reabriu Paraty ao país.
Depois a volta: em 10 de julho de 2007 sai a primeira Indicação Geográfica de cachaça do Brasil e, em 30 de janeiro de 2024, o INPI altera a espécie desse mesmo registro. Paraty vira o primeiro — e até agora único — destilado brasileiro com Denominação de Origem. A diferença cabe numa linha: a Indicação de Procedência diz que o lugar ficou famoso por fazer aquilo; a Denominação de Origem diz que aquilo é do jeito que é por causa do lugar.
Falta a azuladinha: a cachaça composta daqui, destilada com um "travesseiro" de folhas de mexerica dentro do alambique, que fica azulada contra a luz. Por uma regra da ANVISA, não pode ser vendida fora dos alambiques.
Ou seja: a bebida mais paratiense de todas só existe aqui. Tem coisa que não cabe na garrafa nem no caminhão. Tem que vir. Menos preconceito, mais Paraty.
Tem coisa que não sai de Paraty
A azuladinha não pode ser vendida fora do alambique. A taipa não cabe na mala. E a história que sustenta as duas se conta melhor com o copo na mão.
Avenida Otávio Gama, 282 — Pontal, Paraty
De onde veio o que está aqui
- BEAUREPAIRE-ROHAN, Visconde de. Diccionario de Vocabulos Brazileiros, 1889 — os dois verbetes "Paratí". https://archive.org/details/diccionariodevo00rohagoog
- CASCUDO, Luís da Câmara. Prelúdio da Cachaça, sobre "um cálice de paraty".
- APACAP — História da cachaça de Paraty (relatório do Marquês de Lavradio, declínio e retomada). O site da associação está com o certificado vencido e o navegador barra o acesso direto; o endereço abaixo é a cópia arquivada do mesmo PDF. http://web.archive.org/web/20260218172405/https://www.apacap.com.br/historia.pdf
- MILLIET DE SAINT-ADOLPHE, J. C. R. Diccionario Geographico, Historico e Descriptivo do Imperio do Brazil, 1845 — "12 engenhos e mais de 150 fabricas de distillação".
- IPHAN — descrição do conjunto tombado de Paraty e do traçado urbano. O portal do instituto hoje redireciona e devolve acesso restrito; o endereço abaixo é a cópia arquivada. http://web.archive.org/web/20260218233637/http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/381
- IBGE — Formação Administrativa de Paraty (carta régia de 1667; lei municipal nº 1.553/2007). https://servicodados.ibge.gov.br/api/v1/biblioteca?op=historico&codmun=3303807
- INPI — Certificado de Registro IG200602: registro em 10/07/2007, alteração para Denominação de Origem em 30/01/2024. https://www.gov.br/inpi/pt-br/servicos/indicacoes-geograficas/arquivos/certificados-de-ig/assinado_ig200602-_certificado.pdf
- Lei nº 9.279/1996, arts. 177 e 178 — a diferença entre indicação de procedência e denominação de origem. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9279.htm
- NASCIMENTO, R. F. et al. "Influência do material do alambique na composição química das aguardentes de cana-de-açúcar". Química Nova, v. 21, n. 6, 1998. https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0100-40421998000600013&script=sci_arttext
- Mapa da Cachaça — "A história da cachaça azuladinha". https://mapadacachaca.com.br/artigos/a-historia-da-cachaca-azuladinha/
- LA PASTINA FILHO, José. "Eram as telhas feitas nas coxas das escravas?". Arqueologia, v. 10, n. 1, 2006 — o estudo de caso com as medidas e a conta dos 3,85 m. https://journals.kvasirpublishing.com/arq/article/view/64

Quem escreve
Duda Porto
Arquiteta e urbanista, sommelier de cachaça.
Maria Eduarda de Mello Porto é filha e neta de caiçaras e alambiqueiros, pelo lado materno. Nasceu e cresceu em Paraty, ouvindo as duas histórias que a Engenhoca junta numa só: a da cana e a da pedra.
Pesquisa patrimônio e arquitetura colonial — com um assunto preferido, que é a arquitetura dos engenhos. É a primeira sommelier de cachaça da cidade e hoje dirige o Patrimônio Mundial e Cidade Criativa de Paraty.
Quando a Engenhoca assina “Cachaça e Arquitetura”, não é apenas o conceito da marca. É o currículo de quem a idealizou.
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